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Decisão que divide a vida em dois

Escrito por: Ana Margarita Moreno, Diretora Acadêmica do Protege tu corazón naColombia.
Traduzido e adaptado por: Gabriel Briganó e Rafaela Pantarotto.

A cada dia milhares de mulheres enfrentam este resultado de laboratório: “positivo”. Muitas delas, por diferentes razões, vêem seu mundo desabar e cada uma, na intimidade de seu coração, toma uma decisão que partirá a vida em dois.
“Estava sentada em minha cama com o papel na mão, lendo e relendo esta palavra, somente uma palavra: positivo. Não conseguia compreender todo o impacto que estas oito letras teriam em minha vida. Isto é uma enchente e não sei se vou me afogar nela, pensei. Tratei de dormir para não pensar mais a respeito, mas lá pelas quatro horas da madrugada me sento repentinamente na cama com apenas uma palavra na cabeça: abortar. É uma opção, disse-me. Posso evitar a enorme avalanche que desabou sobre mim. Posso escapar do que me espera, não sei muito bem o que é, mas sinto que será muito duro para mim. Será como se nada tivesse acontecido, começar de novo, sem filhos, tudo como era antes”.  

Assim Laura me escreveu há algum tempo. Ela me escuta agora que lhe recordo sua história, enquanto ela acaricia a cabeça de Paula, que nos olha sem entender nada, sem nem mesmo saber falar. Laura refletiu muito naquela noite, provavelmente lhe vieram à cabeça, experiências, fatos, lembranças.  Pensou na consequência de cada decisão e me contou que ao final, sem saber muito bem o porquê, não foi capaz de se livrar do “problema”.

Todos os dias milhares de mulheres se deparam com este resultado de laboratório: “positivo”. Muitas delas, por diferentes razões, vêem a vida desabar e muitas delas tomam uma decisão que partirá suas vidas ao meio: Como saber o que virá? Como não se equivocar?

Luisa aos seus quinze anos, diante da possibilidade de uma gravidez indesejada me dizia: 

“É horrível! O que eu perderia? O que aconteceria comigo? Só de pensar já estremeço. O que diriam meus pais? Meu pai enfartaria e minha mãe nunca mais falaria comigo. Seria uma piada no colégio, imagine você grávida de uniforme, até meus amigos ririam de mim. Imagine nos finais de semana, enquanto todos saem para dançar, eu troco fraldas. E isso sem pensar no futuro: minha carreira, a viagem que sonho para aperfeiçoar o inglês, encontrar o amor da minha vida, enfim. Ter um filho reduziria as possibilidades de escolha. Não! Pensar nisso me aterroriza. Creio que única solução para mim, e para muitas, seria abortar e pronto. Virar a página.”

Virar a página? Está segura? Disse-lhe. Olha: Eu sei que se ignorar o que realmente está acontecendo e imaginar as consequências que terá para o resto da vida, posso te assegurar que o assunto não é tão simples quanto parece, nem tão seguro como nos falam.

Se não vejo, não está acontecendo! Isto é certo? Com a invenção do ultra-som é possível ver o que está acontecendo por dentro. É algo incrível! Em uma gravidez podemos ver um coração batendo furiosamente e sem descanso, a partir da terceira semana de gravidez. Sua luta por viver é incessante, não para de crescer, é tão forte e às vezes tão vulnerável. Certamente viverá, se desenvolverá e chegará a ser um bebê que sorri.Uma criança que brinca, um adolescente que sinta alegrias e tristezas e um adulto que trabalhe, isso se lhe permitir.  Não podemos ignorar estas imagens do feto perfeitamente formado aos três meses chupando dedo, nadando em seu meio quente e feliz, tão perfeito! E também se contorcendo de dor por uma injeção de solução salina, tentado fugir para lugar nenhum, protegendo-se de uma sonda ou de uma pinça que quer destroçá-lo.  E o fato de poder ver ou não, não muda esta realidade!

Bom, mas e a pílula do dia seguinte?  Se me apresso podemos pensar, não existe bebê que sofra, nem um coração que deixe de bater. Mas, isto seria negar uma realidade para nos tranquilizar. Eu li estes dias: “você antes de ser um adulto era um adolescente, antes uma criança, antes um bebê, antes um feto, antes um embrião, antes uma mórula, antes um óvulo fecundado por um espermatozóide; nunca foi um óvulo ou um espermatozoide.” Começo a ser EU desde o momento da fecundação, nem antes nem depois. Um filho começa a ser um filho neste momento.

Recebi uma carta de uma menina de 17 anos contando-me sua história. Aos 16 anos abortou quando supôs que estava grávida do seu noivo. Seus pais a apoiaram nesta decisão. Ninguém mais sabia. Hoje ela me escreve: 

“Queria que fosse apenas uma história, mas é a minha realidade, e queria que fosse escrita para você, para evitar os sofrimentos que vivi. Poderia me considerar como uma pessoa aparentemente forte e madura, pelas atitudes que demonstro em frente aos demais, para todos eles sou feliz, pois me caracterizo por ter um sorriso no rosto a cada dia, mas eles nunca imaginariam o que passei em minha vida e os traumas psicológicos que carrego comigo. Sofri demais, e embora não demonstre, choro em silêncio. Gostaria que minha história, para mim irremediável, possa ser para as outras pessoas, útil e construtiva. Por enquanto, apenas tento, como sempre, sobreviver com um sorriso todas as manhãs.”

Já ouvi muitas histórias de mulheres que tiveram abortos, eu sei também de muitas de todas as idades, que optam por não abortar, e doar o bebê ou deixá-lo para adoção, mas ninguém lamentou deixá-lo viver. Há estudos sérios que confirma isto. Há também estudos que mostram as sequelas físicas e sociais de um aborto provocado. Aqui têm algumas delas:

Efeitos físicos: infecção, hemorragias, dano cervical, perfuração do útero, esterilidade, irregularidade menstrual, coágulos e às vezes a morte.

Efeitos sociais e emocionais - conhecidos como “Síndrome Pós Aborto” ou SPA: Vi claramente em Isabel esta síndrome quando ela me contou: “Você não imagina o que é isso. Se chega a fazer o aborto sem ter a plena consciência do que está se decidindo, também fazem uma lavagem cerebral. E então à depressão vem sobre você, à obsessão é insuportável, você sonha com o bebê o tempo todo. A culpa estava me matando, e não sou uma pessoa religiosa, queria acabar com tudo isso, cheguei até a pensar em suicídio. A tristeza me afogava; cada mês calculava a idade que teria meu filho; quando via uma criança no carrinho me perguntava: como será que ele seria? Seria menino ou menina? Se pareceria comigo? Por mais que tentasse simplificar o assunto, não conseguia. Um erro assim não se repete...”

Algumas mulheres começam a sofrer estes sintomas imediatamente depois do aborto e outras os apresentam depois de meses ou anos. Os efeitos negativos podem se estender ao pai, aos avós e irmãos de uma criança abortada.

Sei que a decisão não é fácil. Exige muita valentia. Mas é preciso pagar um alto preço pela escolha de se decidir abortar; a vida se partirá em dois e a segunda parte será muito dolorosa. A alternativa de dar o bebê para adoção e evitar a marca permanente de um aborto provocado é uma excelente opção.

Milhões de mulheres se arrependem de terem abortado. De não permitirem o bebe de viver. Paula, a pequena filha de Laura, lhe agradecerá pela decisão tomada em um dia qualquer, ás quatro da manhã, apesar do desespero.

Artículo publicado en das entregas en el periódico EL COLOMBIANO de Medellín el 30 de septiembre y el 1 de octubre de 2009. 

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